26.1.12

Autobiografia da dança (só a bailarina que não tem)

Li Cunxin me fez voltar a sentir o bailado. Eu entrei numa sala escura, onde alguém que se fingia ele me fez chorar e bater em meu peito, constranger minha amiga anja (guardadora de minhas costas e de meu espírito volante) que, ao meu lado, também se emocionava com aquela história. De lado deixei minhas convicções comunistas, que me tocavam dentro, embora as soubesse utópicas e deslocadas das poucas virtudes do ser humano real. Eu só pensava na vontade que aquele chinês leve e encantador tinha de voar.  
O último dançarino de Mao (Mao's last dancer, 2009)
de Bruce Beresford

Minha amiga amada íntima, com I. maiúsculo, me fez voltar ao movimento. E cá estou eu, diante da barra, do espelho e das sapatilhas, desta vez mais velha, o corpo pesado, os joelhos ferrados, que não mais acompanham meu raciocínio de borboleta que um dia fui. Ou poderia ter sido. 

Quando tia Juliana me chamou na diretoria e disse: "Você pode ser grande bailarina, viajar com o Corpo do Pederneiras, passar antes pelo Centro Mineiro de Danças Clássicas. Você pode. Mas tem que ser menos intempestiva e rebelde, você não é tão comportada no colégio? E onde deixa sua disciplina quando vem dançar? Tem que aprender a pentear o cabelo, a segurar a boca. Talento você tem que sobra, mas é preciso rigor e trabalho quase militar. Quer ser solista? Está em tempo. Vamos, eu te levo". Eu olhava minhas colegas adolescentes, que passavam o dia a água e sal para contar costelas, enquanto eu, também magra, preferia comer uma caixa inteira da Garoto quando no intervalo da apresentação. Eu não podia trocar o doce pela renúncia. 
Cisne Negro (Black Swan, 2011)
Darren Aronofsky

Não quis bater continência, "sim, senhora". Não queria ser uma soldada clássica. Calcei meus sapatos do barulho e fui dançar com Eurico, que gritava: "Sapateia!". Hoje leio Macedonio e lembro dele. Sapateei a valer, me vi frequentemente um negão dos desafios do Cotton Club. Cheguei até meu máximo. Que em nada me bastou brincar de Fred Astaire, mesmo nos instantes de êxtase incomparável por me sentir um instrumento musical vingado, anos depois de criança expulsa das aulas de piano e violão, por falta de obediência.
Cotton Club (The Cotton Club, 1984)
de Francis Ford Coppola

Enfim, troquei os palcos pelas redações. As letras me amavam mais. Pois abandonei o gesto em função da palavra, que sempre andava comigo (sei que gestos e palavras podem ser, ambos, tão diretos e claros quanto ambíguos e obscuros). Para ela eu tinha persistência e penitência. Até entender que o jornal era como a dança, não me queria. Para sentir minh'alma a bater asas, não podia me esconder dentro de um tubo catódico ou tela plana que o valesse. Como Li, eu queria voar. Como Ícaro, cá estou, braços flutuantes de pena e mel encostados no sol, em queda livre rumo aos profundos do mar.

Hoje balanço meu corpo e minhas palavras. Danço um outro passo para dois, diferente daquele que me afastou do balé, quando eu não queria me sentir carregada por ninguém. Humildemente tento aprender. Mas sei que nada me leva mais além do que aquilo que escrevo. Ainda que vácuo. 
Indochina (Indochine, 1992)
de Régis Wargnier

O bom denominador comum é chegado, passeio entre braços dançantes e parágrafos, estou feliz. Descabelada, gulosa e bem na fita de cetim. Vida em movimento caótico e pontual, a desabrochar nesta melodia que, um dia, se acaba. Termina bem.
 O sol da meia-noite (White nights, 1985)
de Taylor Hackford