É a história de uma figura interessante. Ela era feita de papel. Talento nato para atrair um certo tipo esguio, estavam sempre juntos.
Era assim: ele a olhava, via ali um terreno branco, no máximo linhas, textura suave. Era compelido a passar qualquer momento extasiado, a provocação em cada milímetro de corpo, que convidava: entre aqui, coloque a sua marca. Eu lhe concedo todo espaço da minha pele, o que você fizer permanecerá em registro, seu moço. Com muita honra. Pode rabiscar, apagar, reeditar. Pode trazer suas musas, seus demônios. Pode passar corretivo.
Era assim: ele a olhava, via ali um terreno branco, no máximo linhas, textura suave. Era compelido a passar qualquer momento extasiado, a provocação em cada milímetro de corpo, que convidava: entre aqui, coloque a sua marca. Eu lhe concedo todo espaço da minha pele, o que você fizer permanecerá em registro, seu moço. Com muita honra. Pode rabiscar, apagar, reeditar. Pode trazer suas musas, seus demônios. Pode passar corretivo.
Então vinha o cabeçudo, primeiro com o nariz: mas que cheiro bom é esse, o seu. Depois ia arrastando as orelhas por cima, pedia para escutar os doces ruídos que dela saíam. Mesmo em branco, ela tirava não sei de onde um sonante.
Discretamente o hóspede anunciava o começo de algum desenho. Na sequência, visitava as entrelinhas. Ela percebia que não eram traços, mas palavras. Nisso ele usava, além dos dedos, boca e pálpebras lindas espertas. Perdida no ato, a boneca permitia.
Discretamente o hóspede anunciava o começo de algum desenho. Na sequência, visitava as entrelinhas. Ela percebia que não eram traços, mas palavras. Nisso ele usava, além dos dedos, boca e pálpebras lindas espertas. Perdida no ato, a boneca permitia.
De repente ele tropeçava em um local conhecido como mata-burro. Entendia que podia fazer a curva e virar a página, logo, o mundo. Nossa feminina personagem generosamente aceitava: pode também, pode o que você quiser.
Palavras mágicas, atiçavam o interlocutor.
Das falanges ele tirava braços. A tomava: amassava com tanta força. Dos lábios cresciam dentes, ela começava a entender que era chegada a hora do bote (do boicote). Deixava.
O esferográfico fazia o que melhor sabia. Depois de muito satisfeito, rasgava copiosamente a região de morada da mulher. Retalhava em trapos rápidos e minuciosos, só dava tempo de doer. Guardava as palavras para um caderno melhor. Cada parte dela ficava novamente branca, de pequena.
Solidária, ela entendia. Mas chorava caladinha no escuro, indagava: o que eu fiz de tão horrível, que agora me sobram esses rasgos de solidão? Instantaneamente, entretanto, lembrava que tinha o corpo reciclável, a alma sustentável, o espírito em fome, que funcionavam como agulha e linha, ela dava os pontos, sorria, se costurava, se refazia. Cicatrizava.
Solidária, ela entendia. Mas chorava caladinha no escuro, indagava: o que eu fiz de tão horrível, que agora me sobram esses rasgos de solidão? Instantaneamente, entretanto, lembrava que tinha o corpo reciclável, a alma sustentável, o espírito em fome, que funcionavam como agulha e linha, ela dava os pontos, sorria, se costurava, se refazia. Cicatrizava.
No fundo no fundo, bem no profundo, ela valorizava cada uma das histórias que naquele pequenino peito se construíam. Eram todas dele, o estranho bonito que esteve lá ontem.
Boneca de carne (Baby doll, 1956)
de Elia Kazan
