1.12.11

Euclides e Francisco

Em Brasília meu amor foi hipocrisia. Não em vão. Nessa cidade, meu amor perdeu as linhas tortas do caos passional. Passou a caminhar compulsoriamente pela retidão de extensas avenidas, tornou-se seco, frio, deserto. Não por nada. 

Mas o cupido que arrancou de mim tão garbosa emoção, a dentadas violentas, teve piedade. Ao soprar essa ferida queimada que ainda ardia, lançou-me, generosamente aprendiz, sobre o mesmo espaço dos magníficos: dois poetas. O anjo me apaixonou e escolheu, para perto de mim, uns tais sábios artistas barbados, furiosos, de espumante vivacidade. De voz em sol maior. Doces. 

Francisco aparece como fantasia onírica, sentadinho no sofá, coçando o rosto. Os olhos dele e o corpo magro eu coloquei na prateleira dos hors concours. Ele tem um suprapoder nas pontas dos dedos, dispara rimas ao tocar o próprio semblante. Francisco tem o dom de inundar a minha caixa de entrada com o melhor perfume do sertão. As palavras desse homem têm gosto de sobremesa do tacho. Mesmo quando ele cospe a ira do cidadão ordinário, consigo sentir ternura. Francisco se embriagou do pó do sumiço, mas ainda o vejo lá. O sofá é dele. Dizem que o nome disso é saudade. Ele é tão lindo que a natureza pede licença.    

Euclides é um artesão árduo e precioso. O que ele faz com as frases... não é para qualquer um. Quando se empolga, parece uma gangorra, e aí pode crer que lá vem cascata de saber, lá vem maestria. Euclides transforma meus almoços em pura festa de Babette. Quando se aquieta, parece um profeta, e pode crer que lá vem beleza, versos esculpidos em ouro. Ele tem a chave de alguns poucos dos meus segredos, entreguei sem fazer cópia, com a autorização de meu pai. E cumpre bem o papel: "Mocinha, cuidado, sinta o cheiro de sentimento dentro dos cravos do seu jardim". Euclides me ensina que não importa aonde eu olhe, aqui sempre verei largos retalhos de céu. Ele é tão lindo que o Olimpo faz reverência.   

Caí no colo deles e não quero sair mais. Em Brasília meu amor virou bonança.
Os incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959)
de François Truffaut