escrevo para lhe contar as novidades. Aqui em Honduras da Amazônia continua tudo igual, vida boa e prestes a mudar para boa também; tudo igual, embora eu tenha oficializado o nosso desenlace. Não falo mais de você, como se não mais existisse e eu em ti nem pensasse. Não digo a ninguém que estou inerte, às gotas oculares de chuva quando sua presença invade minhas pestanas, sempre que encaro paredes aqui, ali ou em Buenos Aires. Respiro triste por não te encostar agora quando quero. Fato é que você continua marca em meu exílio, como essa noite, em mais um pesadelo disfarçado de sonho bom. Devo observar que prefiro te sonhar enquanto durmo, pois acordada me esburaco de lamento.
Você chegou aqui diferente. Seus cabelos prateados, que tanto amo pentear com os dedos, tornaram-se fios de ouro durante a madrugada. Os olhos eram mais para o azul que o verde escuro de costume, mas era você. Reconheci pelos traços e pela mirada ressentida que me lançou, apesar do abraço saudoso, sempre atrapalhado na hora do cumprimento (inábil ao toque mais caloroso, ordinário em terras como a minha). Sei que aí agora é frio, e talvez por isso você tenha vindo me buscar no acolhimento da cama. Andamos de avião e pelas praias, a mochila lhe pesava, mas você não soltava minhas mãos. Sua respiração, contudo, continuava profunda e magoada. Você tenta, mas talvez não me perdoe nunca. Eu também não sei se consigo desculpar-me ou o que você me fez.
Patino pelas ruas e tarefas, constrangida de minha cela absolutamente ensimesmada e egoísta pelo seu amor. O mundo se acaba e não consigo me engajar. Pensei me alistar em grupo como os Médicos sem Fronteiras, ser útil às cidades e ao puro afeto, mais do que me apresento hoje: esse pedaço desalmado, carne, osso e músculo, incapaz de dar à nossa história a devida importância indigna que ela possui diante da barbárie terrena. Preciso retomar papéis sociais e sair do casulo enamorado em que vivo trancada, desde quando você veio me perguntar se direita ou esquerda.
Gostaria de saber sua turma vai bem? Deles não guardo nenhum rancor, que permaneçam a atirar lenha nessa fogueira que nos afasta longe, já me decidi. Queria saber também como anda seu time de futebol? Se continuam a fazer fama os bastidores. E se os atletas ainda compartilham aquela mesma mulher. Imagino que você não tenha desistido das cadeiras especiais para as partidas da Liga dos Campeões.
Desejo ainda que não tenha se desanimado de esperar pelo troféu de criatividade universal. Tenho certeza que ele está mais ao seu caminho do que eu.
E para sua pergunta que não se cala, tranquilo e nem se inquiete, que estará morto em palavras, porém vivaz em pensamentos. Seus presentes vão chegar nas nossas datas especiais, que é para não perder a última tradição restolha em meio ao fracasso perante o despreparo do sentimento.
Sigo em choro baixo. Sempre sua e não mais.





















