1.2.12

Prezado Zé Vieira,

escrevo para lhe contar as novidades. Aqui em Honduras da Amazônia continua tudo igual, vida boa e prestes a mudar para boa também; tudo igual, embora eu tenha oficializado o nosso desenlace. Não falo mais de você, como se não mais existisse e eu em ti nem pensasse. Não digo a ninguém que estou inerte, às gotas oculares de chuva quando sua presença invade minhas pestanas, sempre que encaro paredes aqui, ali ou em Buenos Aires. Respiro triste por não te encostar agora quando quero. Fato é que você continua marca em meu exílio, como essa noite, em mais um pesadelo disfarçado de sonho bom. Devo observar que prefiro te sonhar enquanto durmo, pois acordada me esburaco de lamento.  

Você chegou aqui diferente. Seus cabelos prateados, que tanto amo pentear com os dedos, tornaram-se fios de ouro durante a madrugada. Os olhos eram mais para o azul que o verde escuro de costume, mas era você. Reconheci pelos traços e pela mirada ressentida que me lançou, apesar do abraço saudoso, sempre atrapalhado na hora do cumprimento (inábil ao toque mais caloroso, ordinário em terras como a minha). Sei que aí agora é frio, e talvez por isso você tenha vindo me buscar no acolhimento da cama. Andamos de avião e pelas praias, a mochila lhe pesava, mas você não soltava minhas mãos. Sua respiração, contudo, continuava profunda e magoada. Você tenta, mas talvez não me perdoe nunca. Eu também não sei se consigo desculpar-me ou o que você me fez. 

Patino pelas ruas e tarefas, constrangida de minha cela absolutamente ensimesmada e egoísta pelo seu amor. O mundo se acaba e não consigo me engajar. Pensei me alistar em grupo como os Médicos sem Fronteiras, ser útil às cidades e ao puro afeto, mais do que me apresento hoje: esse pedaço desalmado, carne, osso e músculo, incapaz de dar à nossa história a devida importância indigna que ela possui diante da barbárie terrena. Preciso retomar papéis sociais e sair do casulo enamorado em que vivo trancada, desde quando você veio me perguntar se direita ou esquerda. 

Gostaria de saber sua turma vai bem? Deles não guardo nenhum rancor, que permaneçam a atirar lenha nessa fogueira que nos afasta longe, já me decidi. Queria saber também como anda seu time de futebol? Se continuam a fazer fama os bastidores. E se os atletas ainda compartilham aquela mesma mulher. Imagino que você não tenha desistido das cadeiras especiais para as partidas da Liga dos Campeões.

Desejo ainda que não tenha se desanimado de esperar pelo troféu de criatividade universal. Tenho certeza que ele está mais ao seu caminho do que eu.

E para sua pergunta que não se cala, tranquilo e nem se inquiete, que estará morto em palavras, porém vivaz em pensamentos. Seus presentes vão chegar nas nossas datas especiais, que é para não perder a última tradição restolha em meio ao fracasso perante o despreparo do sentimento.

Sigo em choro baixo. Sempre sua e não mais.

America
Carta de uma desconhecida (Letter from an unknown woman, 1948)
de Max Ophüls

30.1.12

Frase do dia - seria a número 21

No entanto o calendário me concede o direito a um lugar, um algo, um momento, um alguém. Exatamente agora, por onde estes artistas me passeiam, com não somente uma sentença, nem por apenas hoje:

"Agora que escrevo, para outro isto podia ter sido a roleta ou o hipódromo, mas não era dinheiro que eu procurava, em dado momento tinha começado a sentir, a decidir que uma vidraça de janela no metrô podia me trazer a resposta, o encontro com uma felicidade, precisamente aqui, onde tudo acontece sob o signo da mais implacável ruptura, dentro de um tempo subterrâneo que um trajeto entre estações desenha e limita assim inapelavelmente embaixo."
Por Julio Cortázar
Trecho inicial de Manuscrito Achado Num Bolso, no livro Octaedro
Editora Civilização Brasileira (1975, p.39). 

Zaz - Les passants
Zaz - Je veux

26.1.12

Autobiografia da dança (só a bailarina que não tem)

Li Cunxin me fez voltar a sentir o bailado. Eu entrei numa sala escura, onde alguém que se fingia ele me fez chorar e bater em meu peito, constranger minha amiga anja (guardadora de minhas costas e de meu espírito volante) que, ao meu lado, também se emocionava com aquela história. De lado deixei minhas convicções comunistas, que me tocavam dentro, embora as soubesse utópicas e deslocadas das poucas virtudes do ser humano real. Eu só pensava na vontade que aquele chinês leve e encantador tinha de voar.  
O último dançarino de Mao (Mao's last dancer, 2009)
de Bruce Beresford

Minha amiga amada íntima, com I. maiúsculo, me fez voltar ao movimento. E cá estou eu, diante da barra, do espelho e das sapatilhas, desta vez mais velha, o corpo pesado, os joelhos ferrados, que não mais acompanham meu raciocínio de borboleta que um dia fui. Ou poderia ter sido. 

Quando tia Juliana me chamou na diretoria e disse: "Você pode ser grande bailarina, viajar com o Corpo do Pederneiras, passar antes pelo Centro Mineiro de Danças Clássicas. Você pode. Mas tem que ser menos intempestiva e rebelde, você não é tão comportada no colégio? E onde deixa sua disciplina quando vem dançar? Tem que aprender a pentear o cabelo, a segurar a boca. Talento você tem que sobra, mas é preciso rigor e trabalho quase militar. Quer ser solista? Está em tempo. Vamos, eu te levo". Eu olhava minhas colegas adolescentes, que passavam o dia a água e sal para contar costelas, enquanto eu, também magra, preferia comer uma caixa inteira da Garoto quando no intervalo da apresentação. Eu não podia trocar o doce pela renúncia. 
Cisne Negro (Black Swan, 2011)
Darren Aronofsky

Não quis bater continência, "sim, senhora". Não queria ser uma soldada clássica. Calcei meus sapatos do barulho e fui dançar com Eurico, que gritava: "Sapateia!". Hoje leio Macedonio e lembro dele. Sapateei a valer, me vi frequentemente um negão dos desafios do Cotton Club. Cheguei até meu máximo. Que em nada me bastou brincar de Fred Astaire, mesmo nos instantes de êxtase incomparável por me sentir um instrumento musical vingado, anos depois de criança expulsa das aulas de piano e violão, por falta de obediência.
Cotton Club (The Cotton Club, 1984)
de Francis Ford Coppola

Enfim, troquei os palcos pelas redações. As letras me amavam mais. Pois abandonei o gesto em função da palavra, que sempre andava comigo (sei que gestos e palavras podem ser, ambos, tão diretos e claros quanto ambíguos e obscuros). Para ela eu tinha persistência e penitência. Até entender que o jornal era como a dança, não me queria. Para sentir minh'alma a bater asas, não podia me esconder dentro de um tubo catódico ou tela plana que o valesse. Como Li, eu queria voar. Como Ícaro, cá estou, braços flutuantes de pena e mel encostados no sol, em queda livre rumo aos profundos do mar.

Hoje balanço meu corpo e minhas palavras. Danço um outro passo para dois, diferente daquele que me afastou do balé, quando eu não queria me sentir carregada por ninguém. Humildemente tento aprender. Mas sei que nada me leva mais além do que aquilo que escrevo. Ainda que vácuo. 
Indochina (Indochine, 1992)
de Régis Wargnier

O bom denominador comum é chegado, passeio entre braços dançantes e parágrafos, estou feliz. Descabelada, gulosa e bem na fita de cetim. Vida em movimento caótico e pontual, a desabrochar nesta melodia que, um dia, se acaba. Termina bem.
 O sol da meia-noite (White nights, 1985)
de Taylor Hackford

24.1.12

Talvez amar e algumas reações 'químicas' 4

Quando você vai parar de dar minha guarda a quem nada me diz? Não tem graça. Ninguém me ajuda a te tirar da minha pele. Pare de me empurrar para uns braços que não conseguem me prender. Ai das minhas fracassadas idas por tantos bizarros atalhos. Só você pode me chamar de pequena com seu H invertido.

Você disse que vinha me resgatar, meu amor. Cadê? E me deixa aqui ao léu, entre esses dedos estranhos, cabeludos? Me tira daqui, não aguento mais. Se essa for a saudade que só se anuncia em minha língua, prefiro perder a boca e desaprender o idioma. Arranque de mim esse vento que sopra pelo meu sangue, a mais vapor, a muito suor e toda angústia de te ter na minha cabeça. Se eu conseguir te esquecer, meus pulmões vão golfar gargalhadas amorosas (mas talvez eu não).

A cada dia coleciono dez bilhetes. São para fazer várias viagens por suas linhas bem desenhadas. Só de imaginar tudo isso, esqueço que rabisco sozinha a nossa história. Por enquanto. Desafio quem quiser me mudar de rumo. Não me responsabilizo pela ousadia alheia.
******************
Mad girl's love song
Por Sylvia Plath
I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again. 
(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red, 
And arbitrary blackness gallops in. 
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed. 
And sung me moon-struck kissed me quite insane. 
(I think I made you up inside my head.) 

God topples form the sky, hell's fires fade:
Exit Seraphin and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you'd return the way you said, 
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)

I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)
Sylvia - paixão além de palavras (Sylvia, 2003)
de Christine Jeffs

17.1.12

Séverine e suas caras

Encanta essa delicadeza que jamais se desintegra. Sempre doce. E jamais desaparece. E sempre terna. Todo mundo quer. Tão cansativo ser a fantasia perfeita e, quando honesta, sem correntes, alegre, flor em chamas: ter graça nenhuma para quem mais se quer agradar. 

Tenho pena mas admiro se você escolher ser fútil, estúpida, cheia de jogos e padronizadamente bela. Porque quando verdadeira, espontânea, libertadora e aceitável, não interessa a 
personne. Talvez sumir seria deveras melhor. Menos sensível e mais burra, menos fogosa e mais submissa, teria sido atraente. Porque até então, te matam ou te acusam de assassina. E você, com suas pétalas, nada entende. O que seu pensamento tem de profundo, seu sorriso aparenta raso. Onde mora seu erro.

Você não tem o talento das pessoas para o que existe
 em fingimento. Caso sincero e bem resolvido deve ser desprezível ou tóxico para elas. Venda seu corpo, que sua alma nada vale. Sua cabeça, então, tem sido pisoteada. E seu coração inexiste, surrado. Nem mais sente.

Se eu não fosse tão educada, se eu não fosse tão sua amiga, te diria o que você é aos meus olhos e aos dele. Mas então te digo que você só teve a má sorte de aparecer fora de hora. Amor alado incondicional como o seu aqui hoje não tem. Qualquer tipo está em falta, aliás. Talvez nunca chegue a esta Terra. 
Mesmo assim você paira contente. Azar de quem não te compreende. Quisera eu ser igual. Sou tão antiquada, entretanto. Por isso o cartório é meu amigo e o padre deixa pecar de vez em quando (se em pensamento não consumado).
A bela da tarde (Belle de jour, 1967)
de Luis Buñuel

13.1.12

Peixe Vermelho 4

Para fazer entender a sensação sobre o que pode ser perverso impôs um consenso. Algemas imaginárias cobertas de espinhos prontos para arder e congelar as mãos. Massa encefálica programada para o inútil presumir. Inconsciente sonhador do pesadelo infindável. Chama de lamparina que nunca se apaga, machuca sem encostar.

Alguém quebrou o desacordo. Alguém se viu despido diante dos olhos de outrem e cuspiu fogo. Alguém sofreu queimaduras no rosto e chorou as lágrimas mais ácidas; absorvidas até alcançar o que havia interno e transformar tudo em pó de verme fibromiálgico.

É assim a ferida de entrar na água do Peixe Vermelho, o rei desmemoriado da crueldade.

E depois
Ao procurar a escrava mais torturada porque favorita, o nadador soberano recebeu as novas da monarquia: quando amarrou braços, pernas e peito, não cortou asas. Pequeno deslize e já era – ela voou. Em ato falho, ele pronunciara a palavra mágica da salvação. Fim da linha para o invasor cotidiano.

P.S.: Confidenciou-me a fujona esperar, sinceramente, que este conto do Peixe Vermelho tenha sido o último. Não há mais de onde tirar nudez real de tal governante psicótico, nem carne esfolada de certa senzala para uma. Está tão dolorida e pede liberdade genuína. Após a regeneração dos tecidos, ninguém olhe para trás. Nem para dentro. Que se tenha encerrado assunto ao desesperadamente aguardado fim de 1028 amanheceres. Assim seja, para cada sexta-feira da sorte covarde, como todos os dias.
A espinha do diabo (El Espinazo del Diablo, 2001)
de Guillermo del Toro

12.1.12

Desconfiar da emoção

Angus & Julia Stone - Big Jet Plane
Canção que está no filme Românticos Anônimos
(Les Émotifs Anonymes, 2010) de Jean-Pierre Améris
Tal post vazio. Mas o filme é bonitinho e a música é gostosinha. (Dizem que diminutivo é mineirês, mas também indica a pouca medida de certas bobagens que me satisfazem pequena. Uma belezura.) Se me dá licença, vou dançar. 

6.1.12

Diálogo da boa rotina

She: Tá aqui seu café, amor.
Him: Senta, toma comigo.
She: Não posso.
Him: Cinco minutinhos.
She: Tenho que me arrumar, tô atrasada. Já comi.
Him: ...
She: Ai! Tá bom, vou colocar um pouquinho e tomo de pé, enquanto faço a maquiagem.
Him: Não repita isso mais nenhuma vez, senão avanço.
She: Que foi?
Him: Você fez de novo.
She: Hein?
Him: Mais uma e vou aí te arrancar a roupa.
She: Dá para me explicar o que está acontecendo?!
Him: É aquele seu velho problema de boca desastrada. A gota do café vaza na borda da xícara, a sua língua sobe na borda para limpar a gota, eu fico aqui com essa visão do paraíso. Tão automático quanto as imagens de arquivo da minha história de amor com essa parte aprazível do seu rosto.
She: Bobo. Tenho que ir trabalhar.
Him: Hoje não. Avisa lá que você chega mais tarde. Mas para o seu bem, acho melhor dizer logo que vai faltar. Mexe com quem tá quieto, mexe.

Se eu contar há quanto tempo eles se conhecem ninguém acredita.
Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's, 1971)
de Blake Edwards

28.12.11

Gunter e a boneca de papel

É a história de uma figura interessante. Ela era feita de papel. Talento nato para atrair um certo tipo esguio, estavam sempre juntos.

Era assim: ele a olhava, via ali um terreno branco, no máximo linhas, textura suave. Era compelido a passar qualquer momento extasiado, a provocação em cada milímetro de corpo, que convidava: entre aqui, coloque a sua marca. Eu lhe concedo todo espaço da minha pele, o que você fizer permanecerá em registro, seu moço. Com muita honra. Pode rabiscar, apagar, reeditar. Pode trazer suas musas, seus demônios. Pode passar corretivo.

Então vinha o cabeçudo, primeiro com o nariz: mas que cheiro bom é esse, o seu. Depois ia arrastando as orelhas por cima, pedia para escutar os doces ruídos que dela saíam. Mesmo em branco, ela tirava não sei de onde um sonante.

Discretamente o hóspede anunciava o começo de algum desenho. Na sequência, visitava as entrelinhas. Ela percebia que não eram traços, mas palavras. Nisso ele usava, além dos dedos, boca e pálpebras lindas espertas. Perdida no ato, a boneca permitia.

De repente ele tropeçava em um local conhecido como mata-burro. Entendia que podia fazer a curva e virar a página, logo, o mundo. Nossa feminina personagem generosamente aceitava: pode também, pode o que você quiser.

Palavras mágicas, atiçavam o interlocutor.

Das falanges ele tirava braços. A tomava: amassava com tanta força. Dos lábios  cresciam dentes, ela começava a entender que era chegada a hora do bote (do boicote). Deixava.

O esferográfico fazia o que melhor sabia. Depois de muito satisfeito, rasgava copiosamente a região de morada da mulher. Retalhava em trapos rápidos e minuciosos, só dava tempo de doer. Guardava as palavras para um caderno melhor. Cada parte dela ficava novamente branca, de pequena.

Solidária, ela entendia. Mas chorava caladinha no escuro, indagava: o que eu fiz de tão horrível, que agora me sobram esses rasgos de solidão? Instantaneamente, entretanto, lembrava que tinha o corpo reciclável, a alma sustentável, o espírito em fome, que funcionavam como agulha e linha, ela dava os pontos, sorria, se costurava, se refazia. Cicatrizava.

No fundo no fundo, bem no profundo, ela valorizava cada uma das histórias que naquele pequenino peito se construíam. Eram todas dele, o estranho bonito que esteve lá ontem.  
Boneca de carne (Baby doll, 1956)
de Elia Kazan

26.12.11

Frase do dia - a número 20

[Posso sempre te fazer sorrir.]
E é isso que farei, pelo menos vou tentar.

Frase para você que entrou na minha vida - não importa se em 2011 ou antes antes antes... E que me transforma nesse ser pretensioso que sou eu. Quando eu penso em você, cara pessoa linda que me lê, meu coração se acha o maioral. E fica a querer o seu sorriso. 

Logo: não tem essa de feliz natal. Feliz ano novo, que nada.

Feliz qualquer coisa que o valha!

(Mesmo nas horas miseráveis, felicidades...!) 
De novo, do blog da Dri.

20.12.11

Descontrole

Gabriel é o mais espetacular de toda a face do universo.
Gabriel é o mais espetacular de toda a face do universo.
Gabriel é o mais espetacular de toda a face do universo.
Gabriel é o mais espetacular de toda a face do universo.
Larari, larari, larari...

Gente, gente, a Catarina está doidona. Ô elemento insuportável e difícil de segurar é mulherzinha em estado de graça. Pior que porre de corno. Mas eu acho bonitinho, confesso. Ela está toda que toda! (Como boa confidente, não contarei o que a nossa querida andou aprontando por aí... Dica aos curiosos: tem a ver com perfume adulterado em dermocasca masculina - não poderia entregar de quem se já não fosse público e notório.)
Diário de uma paixão (The notebook, 2004)
de Nick Cassavetes

19.12.11

A coisa está tão feia que nem deu para inventar um título

Encontro marcado para discutir o caso da Madame O., estavam todos consternados. Precisavam agir, urgente! Daqui a pouco ela não teria mais o mínimo pedaço sadio de superfície. O problema é que sabiam as consequências do diagnóstico: primeiro, a pele começava a descascar e explodir em assanhadas bolhinhas coçantes; em seguida, a melanina vazava pelas unhas; finalmente, ela dobrava o corpo para dentro até se transformar em partícula invisível. Aí, colega, um abraço. Ninguém mais sabia quando voltaria a se abrir, a desdobrar.

O desespero consistia em fabricar logo o antídoto. Fazê-lo em tempo de resgatar a enferma com boca suficiente para receber as gotas medicinais. Primordial, para seguir em eficácia todo esse percurso, era saber a causa dos sintomas de origem: 

- Foi ataque do Geleira Verde.
- Nada disso, foi episódio de sopro do Ardil Crônico.
- Seus incompetentes. Muito simples, foi Golpe dos Bloqueadores Criativos. Ela leu demais e, ingênua, não se fez de rogada. Os safados deram de sereias: atraíram em melodias literárias, fascinaram, deslumbraram. Roubaram-na em ilusão. Agora ela só consegue repetir o lido, vítima, citar e citar... Sofre do mal de peito por amor aos incorrigíveis malabaristas de tinteiros. Pulhas! 
A noiva-cadáver (Corpse Bride, 2005)
de Tim Burton e Mike Johnson

14.12.11

Diálogo do outro

She: Preciso te contar uma coisa.
Him: Diga.
She: Senta, vai demorar um pouco.
Him: Senta que lá vem história.
She: Conheci alguém.
Him: E...
She: Quero dizer, já conhecia, mas aconteceu de novo em outro nível.
Him: Do que exatamente você está falando?
She: Estou apaixonada.
Him: Que bom, não?
She: Maravilhoso.
Him: E então, o que te impede?
She: Você.
Him: Ora, por quê? Eu te apoio.
She: Eu sei, mas como vou ficar com ele se estou contigo?
Him: Não complique as coisas, fique à vontade.
She: Eu quero os dois.
Him: Não se pode ter tudo. Você não está enamorada dele? Vá fundo!
She: Mas e nós?
Him: Continuaremos daqui a quinze dias. Posso ser seu amante, ele não precisa saber.
She: Mas aí vou me apaixonar por você.
Him: Essa é a ideia.
Jules et Jim, uma mulher para dois (Jules et Jim, 1962)
de François Truffaut

11.12.11

Peixe vermelho 3

Queria dizer alguma coisa genial, impressionar. Nada adiantaria, o público estava imerso em auto-frequências jamais captáveis. Tentava descobrir qual seria o apelo, mas estava tão difícil. 

Adoraria ser interessante, sabia que não era. Fazer a coisa certa - impossível, só pensava em escatologias. Queria mostrar a magia do mundo, mas como, se não a sentia, não a via, nem mesmo nela acreditava? Esse mistério perseguia, mas não tocava. A incompetência gritava a construir feiura e indiferença.

Foi à praia e se fartou de frutos do mar mal lavados. As tripas reclamaram o impacto. Teve verborreia, teve disenteria. Dor nos glúteos. Coxeava pela anca e percebeu que havia se transformado em cavalo marinho.

Resolveu dar coices. A ferradura marcou diversas peles de nobre envergadura. A cauda se desenrolou e fez o movimento inverso, meteu um chutão involuntário na própria testa. Percebeu então que não era assim, tão inteligente. Só sabia relinchar.

As vítimas criaram uma lamúria infernal. "Essas  histéricas", em outro tempo seus comparsas as classificariam como mal amadas. Para gente como ele, moralista idiota, elas dormiam de calças jeans, mesmo que ele as tivesse descosturado e feito miséria, ele o sabia. Ignorava uma verdade importante, todavia: elas eram livres e deitavam sem calcinha, mas o chucro não tinha traquejo, portanto não teria acesso.

Depois teve que se reaver com os próprios calos e idiossincrasias.  Era basicamente um energúmeno fedorento e explodia em bolor. Podre, o pobre, muito embora se achasse. Esconjuro.
O grito (Skrik, 1893)
de Edvard Munch

10.12.11

I., Henri, Rudolf

Essa noite não preguei os olhos inundados de areia espinhosa, arranhados pela carga do sétimo selo. Me vi soterrada, devastada pela ausência de sentidos.

Mas a ciganagem me trouxe recompensa: um trio suave penetrou minha casa e valsou lindamente sobre os meus ombros. Amanheci em arrepios, a retorcer o pescoço em cócegas divertidas, como um caracol da alvorada. 

I. é a primeira do meu horizonte. A dona do nome faz jus, é incandescente e domina o céu. As beiras noturnas dessa pequena se emendam nos raios de sol. Nos amamos tanto, quase sempre até romper o dia, nossa rebeldia a dançar nas entranhas.

Henri é especial, só entendo a mente de um homem porque sei Henri em impressões, o tenho em sensações, as mais sublimes e as sórdidas. Pisamos as mesmas pegadas, somos afortunados. Não sei falar muito dele, apenas o sou, até na lágrima hidrocor.

Rudolf é meu doce afeto. Dele sou a Flor, mas abro mão do regador e da redoma. Só o vejo em desenhos, trocamos gotas de aroma, estou encantada. Rudolf é o meu melhor amigo imaginário, a evidência incontestável de minha insanidade. Mas sou criança e me permito.

As carícias dos três remediaram a dor que me consumia nessa noite branca, logo revertida em conforto.
Olivia Ruiz e Nouvelle Vague - Mala vida

9.12.11

Na mira do sapo mandingueiro

Estava com uma sede daquelas. Foi ao Tororó beber água, não achou. O que ela encontrou no meio do caminho foi um belo de um sapo doido para jogar conversa fora.

"Boa noite, Garota Legal Alien, o que você faz perdida por essas bandas?" Respondeu que precisava de líquidos, pois o cotidiano absorto rendia transpiração em excesso. "E o que a dispersa tanto, a ponto de fazer suar?", perguntou o anfíbio. Ela tentou explicar que era a vontade de decifrar eventos obscuros.

"Escute", coaxou o gosmento cheio de si, "esse problema de opacidade é uma querela besta que os calouros tentam resolver por meio da expressão. Só que a linguagem é um péssimo sistema de comunicação! Não é e não pode ser transparente. Não é e não pode ser esclarecedora. A gente até tenta. Mas é tudo una porquería, se é que você consegue acompanhar".

A garota tentava adivinhar qual era a do viscoso. Era simplesmente prolixo, estava altinho? Ou era ela... Legal Alien julgou-se estúpida e desidratada. Pediu desculpas por não poder continuar a interação, partir era uma necessidade fisiológica naquele momento.

O sapo, que estava carente, ficou que ficou revoltado: "Você acaba de despertar a minha ira, senhorita. Pois eu anoto agora mesmo o seu nome nesta página aqui, amarro debaixo da língua e tranco a boca. Mergulho com o papel no fundo do Rio Sena e por lá fico durante bom tempo. Não chego à superfície nem para respirar. Ou não me chamo Grenouille, você vai ver as consequências".

Até hoje ela se sente estranha e a sede não passa.
O labirinto do fauno (El laberinto del fauno, 2006)
de Guillermo del Toro

5.12.11

Peixe Vermelho 2

"Arranque logo essas calças". Partiu para cima dela com tanta vontade que fez violência. Saiu correndo do quarto e expeliu sangue íntimo. Tentou esconder mas, antes de ir embora, ela viu as manchas no banheiro, teve pavor dos azulejos coloridos em bordeaux. Bateu em retirada, não deixou rastro. Contudo, ele era farejador de hormônios e sentiu o cheiro do desejo reprimido, foi atrás. Ambos precisavam conferir no que daria aquela agrura. 

Eles nadaram num mar tão rubro que se apaixonaram sem sentir os cortes. Não deram pontos, largaram fraturas expostas para todo lado, por onde passavam. Aquilo era pior que um filme de terror. Escondida atrás das cortinas roxas, a Boca do Inferno sorria. Os dois entraram em pesadelos medonhos e se amaram para sempre, vestidos de enxofre. Morreram de mãos dadas, a morder as aortas que apodreciam felizes, os dentes amarelos enfiados no coração um do outro. Ganharam asas e, inesperadamente, caíram para cima, num céu de brigadeiro. Cantaram parabéns e guardaram as lembrancinhas em papel celofane azul marinho. Para comemorar, fumaram charuto e fizeram amor.
Coração satânico (Angel heart, 1987)
de Alan Parker

3.12.11

Diálogo do mal entendido

Ela gostou tanto dele que achou melhor não levar adiante. Não queria estragar. Optou por reviver  obsessivamente os momentos apenas em memória, sem contar a ninguém, mas... homem sensível que ele era, fatalmente a procuraria para uma DR. 

Him: Oi, tudo bem?
She: Tudo ótimo.
Him: Vamos parar de fingir que nada aconteceu?
She: Não estou fingindo.
Him: Fiz alguma coisa que te chateou?
She: Não, pelo contrário.
Him: Você não gosta do meu cheiro?
She: Adoro.
Him: Achou meu beijo ruim?
She: Bom demais.
Him: Não fui bem na cama?
She: Que isso, nunca tive tanta sintonia nesse quesito, você não está entendendo.
Him: O que foi então?
She: Nada.
Him: Te tratei mal?
She: Melhor do que eu poderia desejar.
Him: Você não me quer?
She: Quero muito, mas não vou levar.
Him: Vamos rever isso, então.
She: Vamos deixar tudo como está.
Him: Então tá, azar o seu.

Entre mortos e feridos, nenhum dos dois se salvou.
Les regrets, 2009 
de Cédric Kahn

1.12.11

Euclides e Francisco

Em Brasília meu amor foi hipocrisia. Não em vão. Nessa cidade, meu amor perdeu as linhas tortas do caos passional. Passou a caminhar compulsoriamente pela retidão de extensas avenidas, tornou-se seco, frio, deserto. Não por nada. 

Mas o cupido que arrancou de mim tão garbosa emoção, a dentadas violentas, teve piedade. Ao soprar essa ferida queimada que ainda ardia, lançou-me, generosamente aprendiz, sobre o mesmo espaço dos magníficos: dois poetas. O anjo me apaixonou e escolheu, para perto de mim, uns tais sábios artistas barbados, furiosos, de espumante vivacidade. De voz em sol maior. Doces. 

Francisco aparece como fantasia onírica, sentadinho no sofá, coçando o rosto. Os olhos dele e o corpo magro eu coloquei na prateleira dos hors concours. Ele tem um suprapoder nas pontas dos dedos, dispara rimas ao tocar o próprio semblante. Francisco tem o dom de inundar a minha caixa de entrada com o melhor perfume do sertão. As palavras desse homem têm gosto de sobremesa do tacho. Mesmo quando ele cospe a ira do cidadão ordinário, consigo sentir ternura. Francisco se embriagou do pó do sumiço, mas ainda o vejo lá. O sofá é dele. Dizem que o nome disso é saudade. Ele é tão lindo que a natureza pede licença.    

Euclides é um artesão árduo e precioso. O que ele faz com as frases... não é para qualquer um. Quando se empolga, parece uma gangorra, e aí pode crer que lá vem cascata de saber, lá vem maestria. Euclides transforma meus almoços em pura festa de Babette. Quando se aquieta, parece um profeta, e pode crer que lá vem beleza, versos esculpidos em ouro. Ele tem a chave de alguns poucos dos meus segredos, entreguei sem fazer cópia, com a autorização de meu pai. E cumpre bem o papel: "Mocinha, cuidado, sinta o cheiro de sentimento dentro dos cravos do seu jardim". Euclides me ensina que não importa aonde eu olhe, aqui sempre verei largos retalhos de céu. Ele é tão lindo que o Olimpo faz reverência.   

Caí no colo deles e não quero sair mais. Em Brasília meu amor virou bonança.
Os incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959)
de François Truffaut

30.11.11

Frase do dia - a número 19

Peço tiritas para um coração partido.
Flores partidas (Broken flowers, 2005)
de Jim Jarmusch